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Adiverboz | Terror e HQ’s em um jogo feito no Brasil

“Quadrinhos sempre foram meu caminho, mas percebi que, como jogo, a história poderia ir mais longe”

Entrevista realizada por Luis, dev do estúdio de jogos indies Titan Art Games

Adiverboz: terror, quadrinhos e a luta de um artista brasileiro para transformar arte em jogo. Criar um jogo no Brasil, de forma independente, é uma missão cheia de desafios, especialmente para quem vem de um universo paralelo, como o das HQs independentes. Essa é a história de Osmar de Carvalho, ilustrador, quadrinista e agora desenvolvedor de jogos — à frente do projeto Adiverboz, um survival horror 2D que promete unir suspense, narrativa pesada e visual de HQ.Conversamos com Osmar para saber mais sobre sua trajetória, inspirações e os desafios de quem resolve criar jogos de terror misturando arte autoral e crítica social no Brasil.

Como surgiu o seu interesse por desenvolver jogos?
“Eu sempre apreciei videogames e arte desde criança. Mas, por muito tempo, achei que fazer um jogo era algo inalcançável. Vindo da periferia e com poucos recursos, busquei alternativas: me estabeleci como ilustrador freelancer, especialmente trabalhando com clientes estrangeiros. Isso me ajudou a financiar a ideia. Depois de anos no mundo dos quadrinhos independentes, resolvi tentar algo novo. Com isso, foquei no meu aprendizado e também em uma rede de contatos que estabeleci ao longo dos anos para colher informações e aprender o uso de ferramentas, tornando esse trabalho viável. Foi quando comecei a esboçar as primeiras ideias do jogo e mostrar para as pessoas.”

Terror, Brasil e crítica social: a mistura que construiu o Adiverboz


Como surgiu a ideia do jogo?
“Meus primeiros projetos, na verdade, vêm da área do quadrinho independente. Tenho uma obra publicada em quatro volumes chamada Necro (um quadrinho de ação e horror). A princípio, Adiverboz seria uma história em quadrinhos. Mas percebi que era um tipo de história que, em forma de jogo, poderia ser melhor explorada em questão de ramificações. O foco era criar um survival horror, porém em 2D, cuja arte fosse focada em parecer uma história em quadrinhos. Minhas maiores inspirações são obras de terror, como filmes e jogos. Silent Hill e filmes como O Iluminado, por exemplo, são fortes influências no meu modo de escrita.”

Desenvolver um jogo: muito mais difícil do que parece


Qual foi o maior desafio até agora no projeto?
“Bom, só mesmo entrando no ramo que aprendi uma coisa: criar jogos não é tarefa fácil. Tudo precisa ser cirurgicamente bem planejado. Escrever a história, diálogos, lore dos itens, documentos. Mas acredito que a parte mais desafiadora até o momento é balancear as mecânicas para deixar o jogo divertido, apesar de ser uma experiência de terror. Criar um bom feedback visual e auditivo, para fazer o jogador ficar imerso, está sendo o maior desafio, sem dúvida. Por sorte, nosso projeto, mesmo sendo o primeiro, está contando com profissionais muito competentes.”

Ferramentas, equipe e o papel de liderança


Como funciona o processo de desenvolvimento?
“Estamos desenvolvendo com Unity e as artes são todas feitas no Photoshop. Estive sozinho no início, mas, ao mostrar meu trabalho, consegui agregar mais pessoas ao projeto. Estou responsável pela direção criativa e também pelas ilustrações, roteiro, desenvolvimento da lore e level design. Atualmente contamos também com três compositores musicais (também responsáveis por toda a parte de áudio) e um programador. Todos esses profissionais são remunerados.”

O que brilha e o que pesa no desenvolvimento


Qual parte você mais curte no processo? E qual menos gosta?
“A que eu mais gosto, obviamente, é a criação do universo, que passa tanto pelo concept art dos monstros, level design e a parte escrita. A parte que menos gosto é uma que não se liga exatamente ao desenvolvimento: marketing. Artistas, no geral, têm que saber vender o próprio produto, e não ensinam isso pra gente. Nessa parte, realmente, minhas habilidades são bem limitadas. Acredito que essa seja a parte que menos gosto em qualquer projeto.”

O desafio de ser um desenvolvedor indie no Brasil


Qual o maior desafio de ser dev indie aqui no Brasil?
“Acredito que seja principalmente a falta de recursos disponíveis. Já existem muitos cursos, bancos de dados de assets. Porém, ao buscar recursos específicos para jogos, ainda encontramos um teto chamado ‘pagar por isso em dólar’. Isso vale para alguns programas, assets ou mesmo profissionais, como dubladores em inglês, por exemplo. Sem contar a carga excessiva de trabalho que o brasileiro enfrenta, restando pouquíssimo tempo para se dedicar a projetos próprios.
Uma dificuldade externa, pessoalmente, é que tive que me tornar um gestor. Afinal, estou na linha de frente do Adiverboz. Então, mesmo sendo um cara que trabalhou melhor seguindo ordens a vida inteira, tive que aprender na marra o que é liderar uma equipe, tomar decisões etc. Mas acho que tenho me virado bem.”

Conselho para quem está começando


Que conselho você daria para quem quer começar a desenvolver jogos?
“Não possuo tanta experiência na área ainda, mas posso dar algumas dicas. Primeiro, escreva suas ideias (parece meio óbvio, mas muita gente apenas começa o projeto sem um direcionamento e acaba se perdendo ou desistindo). Tendo tudo anotado — ao menos os aspectos principais — vai te ajudar a ter um norte, mesmo que haja alterações futuras.
Segundo, não deixe seu projeto em segredo. Mostre para as pessoas, colete informações, feedbacks. Escute as ideias das pessoas e ouça dicas de gente mais experiente. Isso evitará vários problemas futuros no seu projeto que uma simples pesquisa resolveria. Além disso, mostrar para as pessoas ajuda a criar uma comunidade, também deixa as pessoas na expectativa e pode até mesmo atrair interessados em ajudar no projeto de alguma forma.
Começar com projetos pequenos também é importante, caso não se sinta seguro ainda. Estudar bastante as ferramentas e criar pequenos jogos apenas com objetivo de estudo pode ajudar. Sei que recursos são poucos, mas você não precisa fazer tudo sozinho. Há sempre pessoas dispostas a ajudar. Mesmo que você não consiga remunerar profissionais, ainda pode desenvolver parcerias, e a obra vai servir como portfólio para todos os envolvidos.
No mais, pode parecer clichê, mas nunca desista dos seus sonhos. Se é algo que você ama, que quer fazer parte, desenvolver, criar — vá até o fim. O lema de Adiverboz é ‘Nunca desistir’. Boa sorte nos seus projetos.”

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