Destaque Exclusivo Jogos

Lunacy: Torico – A joia esquecida do Sega Saturn

Em 1997 meu pai chegou em casa com um jogo novo, colocamos no Sega Saturn e uma porta se abriu em nossa mente: A porta dos jogos narrativos. Lunacy/Torico mudou a minha forma de entender os jogos de video game

O estúdio e o lançamento

No auge da era dos jogos em CD-ROM, que eram uma tremenda novidade por assim dizer, quando o Sega Saturn tentava disputar espaço com o PlayStation e o Nintendo 64, surgiu uma obra peculiar e ousada: Lunacy: Torico. Imagine jogar um jogo/filme movido por puzzles e narrativa, com curscenes pré renderizadas que mais pareciam um filme? É, foi isso que Lunacy se propôs a fazer em uma época com pouca tecnologia e muita criatividade.
Desenvolvido pela System Sacom, estúdio japonês conhecido por aventuras narrativas e uso criativo de Full-Motion Video (FMV), o jogo chegou ao Japão em 28 de junho de 1996, sob o título Gekka Mugentan Torico.
No Ocidente, recebeu diferentes nomes: Lunacy, em 1997 na América do Norte, e simplesmente Torico na Europa. Publicado pela Atlus (com suporte da Sega na localização), o game acabou se tornando uma raridade, cultuado por poucos, mas lembrado com carinho pelos que tiveram a oportunidade de jogá-lo.

E eu posso dizer que fui um dos felizardos que teve em suas mãos uma cópia física original dessa obra de arte – Em 1997 meu pai chegou em casa com um jogo novo, colocamos no Sega Saturn e uma porta se abriu em nossa mente: A porta dos jogos narrativos. Lunacy/Torico mudou a minha forma de entender os jogos de video game, se eu soube-se naquela época que mídia física se tornaria artigo de luxo, jamais teria me desfeito dos meus consoles.

Estilo de jogo

Lunacy é um jogo de aventura em primeira pessoa, no estilo de clássicos como Myst, mas com sua própria identidade. A exploração acontece através de cenários pré-renderizados em uma cidade misteriosa com vídeos em FMV que se ativam conforme o jogador interage com objetos ou personagens.
O título foi distribuído em dois discos:

  • O primeiro disco apresenta Misty Town, com uma narrativa mais linear.
  • O segundo disco, ambientado na Cidade das Luas, oferece múltiplos finais, determinados pelas escolhas e pelo uso de itens.

Um detalhe inovador era a função “memory select”, que permitia revisitar cenas já assistidas, algo bastante moderno para 1996. Apesar da movimentação lenta e dos puzzles relativamente simples, a atmosfera envolvente transformava cada passo em parte de um mistério maior.

A história completa e explicada

O jogador assume o papel de Fred, também chamado de “Viajante”. Sem memórias de seu passado, ele desperta numa cela em Misty Town, marcado com uma estranha tatuagem em forma de lua crescente na testa.
Logo descobre, através de figuras enigmáticas como Anthony, que sua marca está ligada à lenda da Cidade das Luas, um lugar onde todos que entram perdem suas lembranças.

O cruel Lord Gordon, governante de Misty Town, condena Fred à morte, mas lhe propõe um desafio: encontrar a entrada da Cidade das Luas e talvez recuperar sua liberdade.
Durante a jornada, o protagonista interage com personagens intrigantes como Dr. Morse, Rose e Gray, cada um com seus próprios segredos.

No segundo disco, a trama se aprofunda. O jogador finalmente chega à Cidade das Luas, onde descobre a verdade sobre a perda de memórias e o destino de Torico — a misteriosa jovem que dá nome ao jogo. Dependendo das escolhas feitas, diferentes desfechos se revelam, reforçando o peso narrativo da experiência.

A modernidade visual que se destacava

Em plena metade dos anos 90, o Sega Saturn não tinha fama de ser o console mais amigável para gráficos 3D, mas Lunacy contornou essa limitação com maestria.
A System Sacom apostou em FMV de alta qualidade e cenários artisticamente detalhados, criando uma atmosfera cinematográfica única.
O resultado foi uma estética sombria, misteriosa e quase surreal, que colocava o jogador dentro de um filme interativo. Esse estilo antecipava tendências que só se tornariam comuns anos depois em produções como Fahrenheit, Heavy Rain e outros jogos narrativos.

Por que Lunacy deveria ganhar um remake

Apesar de seu valor artístico, Lunacy nunca alcançou a popularidade que merecia. Hoje, é lembrado como um clássico cult do Saturn, mas inacessível para a maioria dos jogadores.
Um remake faria total sentido por vários motivos:

  • Narrativa forte: a história de Fred, Torico e a Cidade das Luas permanece atual e poderia ser expandida.
  • Atmosfera imersiva: com gráficos modernos em 4K e renderização em tempo real, o jogo poderia brilhar ainda mais.
  • Preservação histórica: como título raro, um remake traria de volta uma obra importante para a memória dos videogames.
  • Tendência de narrativas: em tempos de sucesso de jogos focados em escolhas e emoção, como Life is Strange ou Detroit: Become Human, Lunacy teria grande espaço no mercado.

Quem foi o criador

A mente por trás do enredo foi Kenji Takemoto, responsável pelo roteiro original.
A direção do projeto ficou a cargo de Hiroyuki Maruhama, com o suporte criativo de Kaori Tsuchiya no planejamento e Hiroshi Houri no storyboard. Essa equipe deu vida a um universo enigmático e visualmente memorável, que ainda hoje impressiona pelo nível de detalhamento e ousadia.

O Futuro

Lunacy: Torico é muito mais que um jogo esquecido do Saturn — é uma peça que antecipou o futuro dos videogames narrativos, vejam só, distribuido pela Atlus que aparentemente agora só sabe fazer Persona e Persona Like Medieval.
Com seu estilo cinematográfico, atmosfera melancólica e uma história muito a frente dos jogos da época , mostrou que videogames podem ser experiências emocionais profundas. Num mercado atual, onde remakes resgatam obras perdidas no tempo, Lunacy é um dos títulos mais dignos de renascer, ao menos ao meu ver, pronto para encantar uma nova geração.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *