o rascunho de uma ideia boa, com uma gameplay muito repetitiva

Chave recebida via Game Press

Drug Dealer Simulator é uma experiência mista de adrenalina e dopamina com uma execução duvidosa. O jogo polêmico que te coloca na pele de um traficante de drogas em uma cidade opressiva, poderia ser uma crítica social incrível, mas falha em divertir e principalmente, em executar a sua proposta.
Drug Dealer Simulator é desenvolvido pela Byterunners, uma desenvolvedora polonesa, e publicado pela Movie Games S.A., uma distribuidora e publicadora de jogos também polonesa, que nos enviou a chave para esta Review.

Gráficos e Performance: Um Projeto Incompleto

A primeira coisa que chama atenção em relação ao jogo é uma certa pobreza de gráficos e do mundo aberto que se apresenta. O jogo não parece completo, mas sim um esqueleto de um projeto, que podemos ver claramente ser ambicioso, mas que faltou tempo e carinho de desenvolvimento. Drug Dealer Simulator possui problemas similares a outros simuladores e além da sua proposta básica, falha em impressionar em qualquer sentido, seja história, gameplay, ambientação ou gráficos.
Falando sobre gráficos, os visuais são simplistas e parecem um jogo saído da geração Xbox 360 e PS3, ainda que o jogo esteja rodando no Xbox Series S. E aqui, qualquer crítica não é exagerada, vale muito ressaltar. Drug Dealer Simulator é um jogo que chegou ao Xbox no dia 16 de abril de 2025, após muito anos em relação à sua versão original de PC, lançada em 16 de abril de 2020. O curioso, é notar que infelizmente, a versão de Xbox que jogamos não está legal e é um claro “downgrade” em relação à versão de Steam. O jogo ocupa o espaço de somente 4,8 GB no Xbox Series S e não parece estar rodando a 60fps, sendo 30fps com queda de quadros. Drug Dealer Simulator roda em 1080P, mas o preset de gráficos é comparável com o preset “baixo” da versão de Steam. Apesar de não contar com melhorias gráficas e de performance, a versão de Xbox também promete 6 grandes atualizações de conteúdo, todas já existentes na versão de Steam. No fim, é curioso notar como Drug Dealer Simulator se vende no Xbox como uma versão atualizada e melhorada, mas entrega uma experiência pior e mais cara do que a versão disponível na Steam.

A Rotina do Tráfico e a Falta de Imersão

Drug Dealer Simulator te coloca na pele de um traficante de drogas, que começa sem nada em uma cidade oprimida por uma força policial e que controla a vida de todos e impõe um toque de recolher. O jogador começa a traficar pequenas doses de maconha e evolui para drogas mais caras e combinações diferentes. O “loop” de gameplay é simples: pegar a mercadoria, levar para casa, separar a mercadoria e vender para clientes interessados. Conforme o jogo evolui, é possível misturar substâncias para fazer novas drogas, que podem agradar o cliente e até viciá-lo, tornando-o um “cliente fiel”. Mas cuidado! Se fizer uma combinação muito mortal, o produto pode causar overdose nos clientes, e claro, isso é ruim para os negócios.
Conforme o jogador evolui na jogatina, a reputação de traficante cresce e é possível fazer negócios maiores, comprar novas propriedades na cidade para usar de base e até comprar mansões e lidar com chefões das gangues locais.
O que parece ser uma experiência divertida pela descrição, de fato é, mas acaba se tornando mais um trabalho que uma diversão de fato, conforme o jogador vai progredindo. Pegar o produto, levar para o cliente, pegar mais e continuar a gameplay, funciona mais como um cumprimento de uma rotina do que uma diversão de fato. O fato dos processos serem todos feitos por menus, tira muito da satisfação de estar progredindo no jogo e não tomar contato com o processo de separar e embalar as mercadorias, dá a sensação de que o jogo possui mecânicas incompletas que nunca foram finalizadas.

Tensão Noturna e Crítica Social

Mas nem tudo é ruim e chato e dizer isso seria injusto. O jogo rende uma boa sensação de adrenalina ao tentar evitar as patrulhas da polícia, principalmente durante a noite, quando o toque de recolher está ativo e mesmo sem estar com nada de ilegal na mochila, pode render uma prisão. Querendo ou não, poucas sensações se comparam à tensão de estar carregando uma tonelada de droga na mochila e ser abordado por uma polícia, que caça freneticamente qualquer atividade ilegal que possa ocorrer. E claro, o jogador é o alvo dessa caça e topar com a polícia em uma esquina inesperada pode render uma boa sensação de medo e adrenalina, parecida com a tensão que alguns jogos de suspense ou terror passam aos jogadores.
Além disso, Drug Dealer Simulator transmite em seu mapa, uma sensação interessante de estar em um bairro de gueto pobre e oprimido, de forma que o jogador está toda hora com medo de ser pego por uma polícia opressora. Mensagens como “a esperança teve overdose” e outras críticas sociais pichadas nos muros da cidade, trazem uma camada interessante para a ambientação. O problema é que a cidade de DDS é pobre de atividades e muitas vezes é desprovida de vida, mesmo durante o dia. Uma das mecânicas essenciais do jogo, por exemplo, é procurar novos clientes e distribuir amostras grátis de drogas. Muitas vezes, é complicado encontrar pessoas para distribuir amostras grátis, uma vez que elas simplesmente não estão lá.

Dificuldade e Interface: Experiência Desajeitada

Com relação à dificuldade, o jogo apresenta um baixo desafio mesmo nos níveis de dificuldade mais altos. Claro, o começo do jogo pode ser desafiador, mas é uma dificuldade mais relacionada às mecânicas que são um pouco confusas no começo, do que em relação à urgência das entregas e patrulhas policiais. Uma vez superada a dificuldade inicial, o resto do jogo se torna uma experiência bem tranquila.
Falando sobre mecânicas e manuseio dos menus, a experiência é confusa para dizer o mínimo. Os controles não parecem terem sido portados da melhor forma para os consoles, em relação à versão de PC. Os menus em lista casam bem com esquema de teclado e mouse, mas são desengonçados no controle. Além disso, os comandos que aparecem na tela estão errados muitas vezes e apresentam diversos bugs. O botão X, responsável pela interação geral com pessoas e objetos, às vezes aparece como A, B e até LT/RT. Organizar os produtos e as mercadorias também é uma tarefa muito difícil no começo, de forma que os comandos errados mostrados na tela, obrigam o jogador a decorar qual botão faz o que. Claro, depois de um tempo, o jogador nem percebe a diferença e toda a gameplay vai aos poucos se tornando intuitiva, mas um erro tão básico assim, me faz questionar se o jogo, de fato, passou por revisões e testes antes do lançamento no Xbox.

Áudio e Mundo Abandonado

A música é inexiste, salvo alguns rádios ligados e sons de TV que tocam ao redor do gueto. Sendo assim, é impossível julgar a qualidade das músicas. Com relação ao som ambiente, o jogo é silencioso em sua maior parte, havendo apenas alguns sons esporádicos de pessoas conversando na rua, passos e folhas. O som ambiente também causa a sensação de que foi aumentado artificialmente à noite para passar um suspense e tensão, mas mais acaba incomodando do que sendo algo de fato atmosférico.
O ambiente geral da cidade em que o jogo se passa, na verdade é meio que um grande bairro, o que nos acostumamos a chamar hoje em dia de um mundo “open-bairro”. Contudo, a falta de atividades secundárias e falta de vida pelo mapa, torna o gueto da cidade vazio e rápido de atravessar. Algumas seções são mais desafiadoras e tem mais presença policial do que outras, mas fora isso, o mundo aberto de Drug Dealer Simulator possui uma execução pobre.

Ritmo, Combate e História Fraca

Drug Dealer Simulator também sofre de ritmo e um meio de jogo bem entediante. As entregas são feitas e o jogo se torna mais um trabalho do que de fato uma diversão. A progressão do jogo é lenta e não te diz algumas coisas importantes, como o fato do apartamento principal não poder aceitar móveis ou novos equipamentos. Apesar da introdução de novas mecânicas e missões para grandes grupos de traficantes, a mesmice da gameplay se instala do começo ao fim e a sensação de estar jogando um simulador de trabalho fica cada vez maior.
O combate de Drug Dealer Simulator é muito simples para ter qualidade. Na maior parte do jogo, ele é inexistente e fugir da polícia é sempre a ordem do dia. Ao chegar no final do jogo, o jogador se envolve em algumas missões onde é possível usar armas de fogo, mas elas são muito simples, não possuem nenhum impacto e foram implementadas de forma simplista em uma atualização.
As variações no loop de gameplay de pegar drogas, separar drogas e entregar drogas surgem com as missões principais da campanha, que tenta contar uma história. Tenta, porque a história serve como mero pano de fundo para inserir o jogador naquele gueto, tratar com traficantes no final, dar um grande último golpe. Seria clichê, se não fosse apenas o esqueleto de uma história, que falha em incentivar o jogador e ressalta ainda mais a falta de variedade e repetição do ciclo da jogatina.

Conclusão: Crítica Social Engessada

Se o seu sonho é ter a vida de um traficante de drogas, talvez o conjunto da gameplay e da história seja o suficiente para te cativar, mas a diversão sofre muito depois de umas 10 ou 15 horas. No final do dia, as maiores inspirações que Drug Dealer Simulator causa no jogador, são: ser um grande traficante de drogas e aproveitar o luxo ou entender a crítica social interessante a um estado policial repressor, em um gueto pobre e oprimido. Contudo, a qualidade talvez não seja o suficiente para cativar o jogador, principalmente porque a febre indie da Steam, “Schedule 1” se provou ser muito mais divertido, engajante e engraçado.
“Schedule 1” é um jogo que virou febre na Steam e alcançou o número de 300 mil jogadores simultâneos nos meses de março e abril de 2025. Feito por apenas um desenvolvedor, “Schedule 1” aposta na galhofa, no meme e na diversão e traz uma proposta muito parecida com Drug Dealer Simulator, mas de forma muito mais engajante e divertida. Ao contrário de DDS, Schedule 1 demonstra todo o processo de preparo das drogas e faz o jogador criar uma experiência mais pessoal com a simulação da vida de traficante.
Mas no final do dia, simuladores em geral precisam ser incríveis para tirar dos jogadores experiências que mudam vidas e, por mais que a proposta seja interessante por propor uma crítica social, Drug Dealer Simulator e Schedule 1 sofrem com a simplicidade de um gênero que se limita pelo realismo exagerado. Ainda que isso agrade muito alguns, sempre importante deixar claro.
Drug Dealer Simulator está disponível por R$92,45 na loja do Xbox e por R$37,99 na versão Steam. Se o seu computador não é horrível e aguenta os leves requisitos mínimos da versão de PC, recomendamos comprar o jogo pela Steam, tendo em vista que os gráficos e performance estão melhores, além de um preço mais barato. O jogo possui falas em língua inglesa, mas está com menus e legenda totalmente traduzidos para o português e apesar de ser um jogo fraco, ao menos Drug Dealer Simulator possui uma boa localização, que inclui gírias traduzidas. A equipe de localização teve muito carinho ao passar para o português, as nuances dos diálogos e gírias em inglês, que são importantes para contexto e imersão.

Para os caçadores de conquistas, Drug Dealer Simulator possui um rol de conquistas interessante, que busca extrair ao máximo a experiência do jogo. Mas para ir atrás de todas, o jogador precisará ser bem perseverante em ignorar os inúmeros problemas do jogo.

De forma geral, os bugs foram constantes durante nossa experiência com Drug Dealer Simulator, mas nenhum atrapalhou a progressão ou causou qualquer fim de jogo, corrompimento de saves ou crashes exagerados. Os bugs de DDS são majoritariamente visuais, de forma que a iluminação é inconstante, sombras pulam e clipam pelo mapa e NPCs às vezes não se mexem, não possuem expressões faciais ou estão em pose de “T”.

Após 25 horas jogadas no Xbox Series S, a experiência geral com Drug Dealer Simulator foi bem abaixo do esperado e o jogo está feio, assim como possui diversos bugs visuais e de iluminação. DDS possui uma gameplay razoável, um mundo aberto vazio e previsível, uma progressão muito lenta, um combate que existe, mas não se leva a sério, um esqueleto de roteiro e história, e bugs que impedem o jogador de realmente se imergir na experiência de um traficante de drogas.

Drug Dealer Simulator é um projeto mal-executado de uma boa ideia. Para quem deseja muito ser o próprio Pablo Escobar e brincar do terrível sonho de ser um traficante de drogas, o jogo pode ser cativante. Se você encara o simulador com uma pitada de crítica social, é possível sentir a tensão e a imersão de ser um imigrante oprimido de um gueto, que se vê obrigado a traficar drogas para sobreviver. Mas fica o aviso: será necessária muita força de vontade para superar a gameplay repetitiva, pouco divertida e engajante, que não é sustentada tampouco, pela história fraca. Vale a pena? Se a proposta do jogo te interessar, vale. Mas de forma alguma, recomendamos a versão de Xbox do jogo, considerando a versão da Steam, que possui melhor performance, gráficos, menos bugs e é mais barata.

Drug Dealer Simulator é o rascunho de uma excelente ideia, mas possui uma gameplay muito repetitiva, que não é sequer sustentada pela história, ficando para o jogador, a responsabilidade de encontrar divertimento no jogo. Se a proposta te interessar, escolha a versão de Steam, que está mais estável, mais bonita e mais barata que a versão de Xbox. Infelizmente, Drug Dealer Simulator não é uma boa experiência no Xbox Series S.

Redator / Repórter / Entrevistador / Análise de jogos
Roteirista, amante de história e jogos. Dono do canal História & Games.

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