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Review de Ruffy and the Riverside – Um lembrete de que a magia nos jogos ainda existe

Review de Nintendo Switch

Crescer é meio que isso: um processo gradual e silencioso de desbotamento. Na infância, a vida é feita de cores, vibrante. Cada nova experiência revela uma descoberta, uma epifania. E conforme crescemos, a vida nos colore com seu pincel de diversas cores, até o momento em que ela eventualmente para, e nós começamos a desbotar.

A gente para de se apaixonar com facilidade — primeiro por momentos, depois por pessoas e até por ideias. Depois de tantos tropeços, enganos e decepções, vamos erguendo barreiras. Ficamos mais céticos, mais racionais, mais “seguros”. Mas também mais frios.

E com os jogos é igualzinho. Até hoje me lembro da sensação de olhar pra caixa de Banjo-Kazooie do N64, em 1998. Aquela bruxa enorme na capa tentando pegar o Banjo, enquanto a Kazooie gritava enlouquecida na mochila. E aquelas paletas de cores super saturadas — era como se o cartucho gritasse: “AVENTURA E DIVERSÃO!”

A cara do Jinjoo de pocas ideias.

Hoje, já adultos, na tentativa de transbordar realismo, a indústria parece carecer de criatividade. Tudo parece… menos.

Por trás de toda essa constatação melancólica, contudo, há um mistério. Parece que o universo reservou, em suas engrenagens, um espaço para a quebra de regra. Uma ruptura com a mediocridade. Uma anomalia. É nesse sopro de imprevisibilidade, de sair do óbvio, que nasceu Ruffy and the Riverside.

Um Novo Clássico à Vista?

Ruffy and the Riverside não é um jogo qualquer. Com lançamento previsto para 26 de junho de 2025, o estúdio conseguiu um feito raro: unir os elementos mais encantadores dos melhores plataformers do passado — como Super Mario 64, Kirby, Zelda e, claro, Banjo-Kazooie — com uma habilidade rara de inovar, sem parecer uma cópia esvaziada.

Ruffy and the Riverside não é apenas uma love letter: ele possui DNA próprio e não esconde sua hereditariedade — pelo contrário: a homenageia de forma genial (e bom humor), mostrando que talvez, só talvez, a magia tenha voltado.

Para tirar suas próprias conclusões, me acompanhe nesta análise dos 5 pontos que fazem de Ruffy and the Riverside um jogo imperdível.

Mecânica

Ruffy é um urso simpático e muito carismático, com uma habilidade que parece até boba, mas genial: a TROCA. Com ela, Ruffy consegue alterar a textura ou composição dos objetos ao seu redor. Uma árvore de madeira pode virar uma árvore de pedra. Um rio sereno pode virar um rio de lava. Ou ainda, você pode simplesmente trocar as cores das flores de um campo.

Além dessa habilidade única, Ruffy também domina os movimentos clássicos de qualquer bom jogo de plataforma: soco, pulo, corrida, aquela bundada do Mario no chão e até um voo improvisado. Basta apertar o botão de pulo duas vezes e sua parceira inseparável, a abelha Pip, aparece pra ajudar a planar por alguns segundos.

A TROCA em ação!

Introdução

A história de Ruffy lembra a de qualquer brasileiro médio: ainda criança, ele foi adotado pelo mestre Qwin, um urso artista dono de uma oficina de pintura. 

Antes mesmo de atingir a maioridade, já estava trabalhando por lá num esquema pra lá de suspeito: os clientes levavam quadros antigos, que já tivessem enjoado, e saíam com obras “novas” graças aos talentos mágicos de troca do pequeno trabalhador.

A rotina seguia tranquila até a chegada inesperada do Sr. Eddler, uma toupeira-cientista que aparece para anunciar que, agora, passados 12 anos de sua adoção, o nosso herói de pelúcia está pronto para atender ao chamado do destino. 

E é assim que começa a aventura. Uma narrativa leve, divertida e com boas doses de humor, que brinca com inteligência com o velho e tradicional mito da jornada do herói.

1. Um Mundo convidativo e Cheio de Surpresas

Ruffy mora em Riverside, uma linda ilha com gráficos de encher os olhos. Logo no início da aventura, já se vê a ousadia dos desenvolvedores: um mundo belíssimo, todo estruturado em gráficos 3D com texturas propositalmente de baixa resolução, paleta limitada e mapeamento simples, remetendo ao visual dos jogos do Nintendo 64. Admirar Riverside de um ponto alto do mapa é como observar um organismo vivo: tudo parece pulsar e respirar, com elementos em constante movimento.

Que lindo, cara.

Mais um toque de ousadia: todos os personagens têm estilo 2D, desenhados à mão, como figurinhas de um álbum. O contraste entre estilos funciona incrivelmente bem e é parte essencial do carisma do jogo.

Como se não bastasse, Ruffy importa uma ótima tendência dos jogos atuais de mundo aberto: a liberdade. Sempre tem algo acontecendo ao seu redor. Um puzzle opcional ali, uma interatividade aqui… Nada é obrigatório, mas tudo vale a pena. As recompensas incluem itens como a Pedra dos Sonhos, que permite alterar as texturas do mundo ao seu gosto. Um toque de criatividade autêntica que mostra o cuidado com a experiência.

2. Acessibilidade e Bem-estar do Jogador

Este é um jogo que se importa com o jogador. Os desenvolvedores tomaram decisões de game design pensadas para garantir uma experiência leve, fluida e inclusiva.

Empacou em um puzzle? Pague com algumas moedinhas e receba a solução. Esqueceu a missão? O HUD tem um radar fixo no topo da tela, um mapa em tempo real e uma listagem organizada de tarefas.

Morreu no meio do dungeon? Não se preocupe: há checkpoints invisíveis que impedem a frustração. O sistema de moedas é abundante e permite, além de resolver puzzles, comprar corações extras. É o tipo de design que acolhe, em vez de castigar — mas sempre deixando a decisão final nas suas mãos.

3. O Prazer em Jogar

Ao se criar um jogo, fazem-se escolhas. Para a história, para as mecânicas, para o looping de gameplay… Tudo depende do objetivo final da direção criativa do estúdio.

Hoje, a fórmula do vício já foi descoberta — e dá lucro. É loot aleatório só-que-não, login diário, missões de terça, evento de sexta, evento de fim de ano, algoritmo que manipula seu controle, sidequests repetitivas só pra inflar o mapa…

“Você precisa de 1 casca de árvore, 3 glândulas de sapo e 1 bico de pássaro albino para melhorar essa meia de couro.”

Ou: “Toma esse mapa gigante pra você — mas só depois de 40 horas você libera a montaria.”

Ruffy and the Riverside renuncia a tudo isso. Seu compromisso é outro: devolver a cor desbotada ao ato de jogar. Aquela mesma cor que pintava nossos dias nos anos 90.

4. O Sound Design

Agora… o que dizer da música tema? Uma espécie de rap funkeado, cheio de scratches e uma percussão descompassada que cria uma desorganização sonora — bem no estilo Donkey Kong Country. A trilha sonora inteira do jogo é excelente; mas a música tema rouba a cena, pois reflete perfeitamente a atmosfera despretensiosa do jogo.

Como nos clássicos do gênero, os personagens não tem falas verbais. Usam pistas vocais — murmúrios, gritinhos divertidos, gemidos fofos — que funcionam como sinais emocionais. Esse recurso, comum em game design, transmite personalidade e sentimento sem uso de palavras. É perfeito para atribuir emoção a personagens não-verbais.

As pistas vocais em Ruffy são adoráveis, mas o destaque absoluto vai para Pip, a abelha, que se comunica com gritinhos fofos que dão vontade de protegê-la com a própria vida. É impossível não sorrir.

5. Uma Mensagem Urgente e Necessária

Ruffy é um dos pouquíssimos jogos atuais que tem mensagem a transmitir ao jogador. E uma mensagem forte. Aqui não darei spoilers — mas quem jogou Secret of Mana (1993) e EarthBound (1994) corre sérios riscos de se emocionar.

(chorando copiosamente em francês)

Bugs e Tropeços

Infelizmente, nem tudo são flores. Nos momentos finais, durante uma luta contra a tartaruga-gigante, ocorre um bug incômodo: falhas invisíveis de colisão fazem o personagem atravessar o solo, o que pode causar dano injusto ou quedas dramáticas para fora do cenário — um clássico problema de clipping.

“FUI”

No caso, havia LAVA sob o chão. Imagina o estrago.

Pior: não havia como sair daquele lugar. Quase resultou em um soft lock, não fosse este cavaleiro destemido que vos fala.

Esse bug tornou a luta — que já é bem mais difícil que o restante do jogo — ainda mais frustrante. Uma parte que destoa da proposta acolhedora da jornada e que merece revisão técnica e de balanceamento nas próximas atualizações.

Segundos antes da desgraça acontecer.

Nota final:

Jogar Ruffy and the Riverside foi uma experiência fenomenal. Em um cenário onde a violência e a guerra se tornaram diversão infantil, Ruffy surge quase como uma falha na Matrix: um retorno à diversão inocente, lúdica e colorida que fez dos anos 90 a era de ouro dos jogos.

Considerando a ousadia gráfica do projeto e por se tratar de um título indie de estreia, é seguro dizer que os bugs pontuais serão ajustados em atualizações futuras.

No fim das contas, Ruffy and the Riverside não é só um ótimo jogo — é um lembrete de que a magia ainda existe.

Resumão

Galeria de fotos <3

Análise baseada na versão de Nintendo Switch.

Redator / Repórter / Entrevistador / Análise de jogos
Roteirista, amante de história e jogos. Dono do canal História & Games.

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