Bruno Castelo Exclusivo

O vício em pornografia, a sexualização em videogames e os ataques a atrizes

Até quando o limite vai ser ultrapassado?

Hoje, em mais uma das minhas leituras diurnas no X, acabei vendo mais uma postagem viral comparando a beleza da atriz Erika Ishii com a de outra personagem oriental. O deboche e a falta de respeito com a moça beiram o inacreditável — como se toda personagem feminina precisasse ser sexy e usar pouquíssimas roupas por obrigação.

A comparação da vez envolvia Ada Wong, a icônica espiã de Resident Evil 4 Remake. Curiosamente, o autor da postagem “esqueceu” de mencionar os ataques sofridos por Lily Gao, atriz que interpreta Ada. Assim como ela, diversas outras intérpretes têm sido alvo de ataques gratuitos e cruéis, seja por aparência, seja por seu trabalho.

Como se todos na internet fossem modelos de revista, muitos se sentem no direito de agredir e desrespeitar mulheres que simplesmente não atendem ao padrão de fantasia criado pela própria comunidade gamer. Uma gigantesca parcela do público masculino continua reproduzindo comportamentos grotescos contra mulheres nos videogames — e isso já dura anos.

Esse é um exemplo: a esquerda, como seria uma protagonista de jogos segundo o público com aba anônima no navegador, já a direita, alguém mais próximo de características reais.

Não, isso não é militância

Antes que alguém diga: não, não sou militante. E não, não apoio a Sweet Baby Inc. ou qualquer outra consultoria de “política correta”. O roteiro final de Homem-Aranha 2 está aí para provar que exageros também existem.

Sou fã de personagens como Lara Croft, Ada Wong e tantas outras heroínas fortes, icônicas e belíssimas. Mas é impossível ignorar a epidemia de sexualização extrema em conteúdos de videogame e como isso alimenta comportamentos tóxicos e ataques pessoais.

Munidos de perfis falsos e uma repulsa por qualquer traço de feminilidade que não os satisfaça sexualmente, esses caras se reproduzem como ratos de esgoto digital, poluindo uma das indústrias mais criativas e acolhedoras que já existiram.

Casos marcantes de ataques

O caso de Laura Bailey é um dos mais lamentáveis. Primeiro, a polêmica por interpretar Nadine em Uncharted 4 — personagem negra, dublada por uma atriz branca. A Naughty Dog e Laura foram atacadas como se a atuação fosse um crime.

Anos depois, em The Last of Us Part II, Laura e Jocelyn Mettler (modelo facial de Abby) sofreram ameaças de morte por causa de uma decisão narrativa do jogo. Laura havia acabado de ter um filho — e até sua família foi ameaçada. É o cúmulo do absurdo.

A conexão com o vício em pornografia

Mas o que isso tem a ver com o vício em pornografia?

Em uma matéria da BBC Brasil, o relato de uma mulher sobre o impacto desse vício — que afeta homens e mulheres — me fez refletir sobre algo: será que as expectativas irreais do pornô e suas paródias de entretenimento não estão influenciando a forma como as pessoas enxergam personagens e atrizes reais?

O relato de Courtney é brutal: a desconexão com experiências reais gera frustração, isolamento e dependência emocional. A busca constante por descargas rápidas de dopamina cria padrões inatingíveis, afastando o indivíduo da realidade.

Outro entrevistado, Shaun Flores, resumiu bem:

“Eu não queria jogar futebol, só queria ficar dentro de casa. Mas havia culpa e vergonha, e não importava o que eu tentasse fazer — eu não conseguia parar de assistir. Foi quando percebi que algo estava errado.”

A falta de empatia e a desconexão com o real

Então, por que relacionar algo tão grave quanto o vício em pornografia com o ódio direcionado a mulheres nos games?

Porque tudo isso nasce do mesmo lugar: falta de noção e empatia. Quando você reduz o trabalho de uma atriz a um debate entre “bonita” ou “feia”, “woke” ou “não woke”, você desumaniza a pessoa por trás do personagem.

Não há problema em não gostar de uma atuação ou boicotar um jogo — faz parte da liberdade do consumidor. O que não é aceitável é invadir redes sociais, promover caça às bruxas e atacar aparência e vida pessoal de mulheres que você nem conhece.

Será que parte dessa raiva não vem da desconexão com mulheres reais, alimentada por fantasias irreais de beleza e comportamento?

Fica o debate

Enquanto continuarmos alimentando uma cultura que mistura pornografia, ódio e frustração, continuaremos vendo ataques covardes contra atrizes, artistas e desenvolvedoras.

A indústria dos videogames merece mais maturidade — e os fãs, mais consciência sobre o que consomem e reproduzem.

Fontes

Review de Jogos | Criador de Conteúdo
Fã de PlayStation, mas não da Sony | Fã de Castlevania | Gamer | Apresentador do programa "Castelo do Caos" no Youtube.

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